Uma coisa chamada saudade
Porque tem gente que marca a gente de verdade
A melhor coisa para quem trabalha com crítica de cinema é estar em um festival de cinema. Mesmo com pouco tempo para descansar e apesar da correria, é ótimo ver coisas diferentes, falar sobre o cinema de outros lugares, com formatos e estilos diversos, comparando percepções e compartilhando experiências com pessoas que fazem parte da nossa vida há anos. Com algumas delas nem temos tanta intimidade assim; outras viraram colegas queridos, e outras ainda, parceiras, confidentes, talvez melhores amigas da vida.
Nas nossas rodinhas de conversa, dominadas majoritariamente por um único assunto, queremos ser levados a sério, mas nem sempre; e defendemos nosso ponto de vista, ou não, enquanto falamos aquilo que temos como coisa séria. Nos divertimos com besteiras também, é lógico. Mesmo que a gente tenha a consciência da chatice e insistência temática – temos até um novo desafio, que proíbe o assunto –, esse acaba sendo o lugar onde gostamos de estar, com as pessoas com quem escolhemos dividir esse tempo tão grande da nossa vida.
Além de falar de filmes, falamos também da gente mesmo, é claro! E nessa CineOP, em uma das nossas conversas, lembramos de uma pessoa que estava sempre conosco: Ruth Guedes, querida de Goiás que fazia as coberturas para o jornal O Popular de Goiânia. Hoje ela faz assessoria de imprensa e dá o ar da graça pelas redes sociais. Saudade!
Essa lembrança da Ruthinha me fez pensar nesse vínculo com as pessoas que a gente passa a vida inteira encontrando em festivais. Pessoas que conhecemos bem e vemos poucas vezes no ano, mas, sempre que nos encontramos, é como se o último encontro tivesse sido ontem.
É uma dinâmica engraçada, ou melhor dizendo, interessante, porque a gente conhece o jeito, o gosto, as piadas. Vai acompanhando a vida, vê os relacionamentos começarem, os filhos crescendo. Tem gente no grupo que a gente conhece há décadas, já brigou, já fez as pazes. Tem quem se deu bem logo de cara e tem quem demorou um tempo para se abrir. Em aproximações e reaproximações, muitas amizades, conversas e histórias para contar.
São quase 30 anos da minha vida e, neles, gente nova foi chegando, integrando e ganhando espaço, na cadeira do lado no cinema, na mesa do café da manhã e do almoço, e nos muitos grupos de WhatsApp ou qualquer outro aplicativo do tipo que exista. Entre os vínculos e esse monte de gente que adoramos encontrar e conversar sem parar, tem essas pessoas que fazem falta porque tiveram que se dedicar a outras coisas, como a Ruth, o Adriano Garrett, a Yale Gontijo, o Adécio Jr. São ausências doídas, mas a gente consegue mandar uma mensagem, encontra aqui e ali em um filme ou uma mostra, e pode até combinar um almoço e uma cervejinha.
Pensar nisso enquanto andava pela cidade de Ouro Preto, em um festival tão propício como a CineOP, me trouxe um sentimento bem conhecido. É uma nostalgia que me leva sempre para um mesmo lugar e uma mesma pessoa: o restaurante vegetariano de Tiradentes, onde estive com João Sampaio pela última vez antes dele nos deixar naquele ano de 2014.
João tinha uma presença magnética, marcante. Era divertido e fofo ao mesmo tempo, sentimental e debochado também, e enchia todos os espaços com o seu carisma e bom-humor. E como era acolhedor. O tempo passa e, seja numa conversa, num almoço, ou mesmo andando pelos lugares, sempre tem um momento que eu me lembro dele. Vem aquele vazio que não se pode preencher, porque João virou uma espécie de presença em quase todos os festivais que eu frequento, mesmo depois de tanto tempo de ausência.
CineOP e seus novos filmes antigos
A CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto completou 20 anos em grande estilo, marcando seu posto de mais importante evento do país quando o assunto é pensar na permanência do cinema. Foram muitos debates, exibições e atividades que concatenaram seus três eixos temáticos: preservação, história e educação.
Enquanto o humor no cinema, em especial o humor das mulheres, foi o tema do eixo histórico; o uso, reinterpretação ou reconfiguração de materiais de arquivo na criação de novos registros guiou a linha curatorial da primeira competitiva da mostra, composta por filmes contemporâneos. “Paraíso”, foi o longa escolhido pelo júri oficial. O documentário de Ana Ripier encontra o presente e o coloca em contraposição com imagens do passado, fazendo um retrato da sociedade brasileira e trazendo à tona seu passado colonial, racista, classista, machista e todo o resto de istas que constituem a estrutura branca patriarcal cisheteronormativa que nos cerca e determina.
Revisões e descobertas
Em outras mostras, as restaurações e digitalizações que fazem com que os filmes de antes voltem às telas para novas e velhas audiências em cópias lindonas de se ver. Vou deixar algumas delas aqui para que vocês vejam quando puderem.



A Mulher de Todos (1969), de Rogério Sganzerla
Ângela Carne e Osso quebrando tudo, com uma atuação brilhante de Helena Ignez.Alô! Alô! Carnaval (1936), de Adhemar Gonzaga
Musical com formatação clássica de seu tempo: uma colagem de nomes e canções famosas.Célia e Rosita (2000), de Gisella de Mello
Dirce Migliaccio e Cleyde Yaconnis em uma viagem nonsense de duas amigas entediadas.


O Capitão Bandeira contra o Dr. Moura Brasil (1971), de Antonio Calmon
Cláudio Marzo entre o incômodo de viver e o medo de morrer. Com Norma Bengel, Hugo Carvana, Paulo Cezar Pereio, Dina Sfat e Sonia Braga.Dercy Gonçalves (1981), de Abrão Berman
Curta documental sobre os 50 anos de carreira de Dercy.Esconde-Esconde (1988), de Eliana Fonseca
Curta delícia de terror neon-kitsch com Fernanda Torres e Raul BarretoOs Homens que eu Tive (1973), de Tereza Trautman
Pitty é uma mulher que decide como quer viver a sua vida. O filme tem 50 anos mas mantém o frescor.
Dan Da Dan está de volta!
Já temos “Dan Da Dan” para matar a vontade e acabar com a espera. Finalmente, podemos ver o que aconteceu com Momo Ayase nas termas do vilarejo distante. A segunda temporada do anime estreou na Netflix na última semana e, a partir de agora, a cada quarta-feira, um novo capítulo estará disponíveis na plataforma. Como sempre, com ganchos caprichadíssimos.
“Dan Da Dan” conta a história do encontro de dois jovens muito diferentes – Momo e Ten Kakakura, ou Okarum, que se desafiam para provar suas crenças, ela no paranormal e ele no extraterrestre. O modo como as coisas saem do controle e, ao mesmo tempo, acontecem como esperado para uma dupla de adolescentes é muito equilibrado. O visual, cheio de experimentações e atrevimentos, não fica atrás. Para quem ainda não conhece, fica o aviso: é viciante.
Quando entramos no universo “Dan Da Dan”, já somos capturados pela abertura da primeira temporada, uma das mais sensacionais dos últimos tempos, que deixa não só as imagens como a música “Otonoke” grudadas na cabeça. Daquelas que não deixa ninguém apertar o “pular abertura”. A da segunda temporada chegou diferente, mas segue boa. Além disso, o anime tem uma dublagem em português que faz toda diferença. Nesse caso, podemos dizer até que é melhor do que a versão original, daquelas que a gente se apega..
É só apertar o play e ser feliz.




